quarta-feira, 14 de março de 2012

Era tarde,e minha cabeça já estava pesada demais para meus ombros suportarem. O chão daquele lugar era irregular e sujo, hávia restos de cigarros e de alma humana. Meu cabelo estava cheirando a fumaça,e meus pés úmidos latejavam num sapato azul escuro.Mesmo no meio de tantas coisas turgidas eu conseguia enxergar clareza o seu olhar.
Meu coração ainda palpita quando lembro da sexta-feira mais longa da minha vida. Não há porém nenhum motivo para ter esses olhos marejados agora.
Sinto sua falta, e talvez o motivo seja esse. Talvez seja por isso que não consigo tirar seus olhos de guia da minha cabeça. Sinto falta dos afagos, de todos nossos pequenos contatos e da sua voz de conforto.
Minha mente volta para aquele lugar paralelo no tempo, e o tempo agora pede colo.

domingo, 11 de março de 2012

Lúcio,
Escrevo-te, lápis em punho, nesta madrugada. Não encontrei caneta? Talvez porque o escrito à lápis sempre possa ser apagado, mudado, (re)editado. Com a vida não tem disso. Ensaio e estreia. Somos meros rascunhos do que planejávamos ser. Personagens de nossos pequenos dramas pessoais. A gente lê tragédia grega e acaba vivendo dramalhão mexicano com requintes de patetismo.
Eu (sim, "lá vem ela com seus eus", imagino sua possível irritação aqui) sempre dei valor demasiado à ausência, porque ela é um lugar de destroços. Titubeio, tropeço numa pedra mal colocada e não há uma mão alí para me amparar. Criança que escondeu-se no armário e os pais não deram falta, durante uma festa. Alguém abre a porta do armário, pergunta por onde estive e me abraça. Faço de conta que foi assim, e dói menos. As melhores cenas da minha vida não aconteceram, mas deveriam.
Não te respondo com o mesmo lirismo, pois tem me faltado poesia no rodo cotidiano. Onde vende lirismo?
Espero-te. Juro com a minha falta de fé em quase tudo que nunca mais te espero. As esperas me fatigam. Respondo-te. Emudeço.
Naquele tempo em que tu e eu éramos "nós", me chamavas de bailarina astuta. Naquele tempo, esqueci de te dizer algo f-u-n-d-a-m-e-n-t-a-l: eu nunca aprendi a dançar tão devagar, pra te acompanhar. Ou talvez tenha dito, e não ouviste meu sussurro. Aparecias mesmo quando eu gritava histericamente, com seu ar professoral de quem viveu mais. Eu, sempre a criança mimada a engolir o choro. No entanto, não vinhas quando eu cantava, num segundo mais feliz.

(Vanessa Souza Moraes in: Cadernos de Luísa)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Não interessa o que passamos, eu quero ir embora. Eu lhe disse, assim que entreguei o último bilhete "Não sou feita para aguentar" e assim fiz. Não suportarei nem mais uma pontada que tenha gosto do desgosto, se me doer eu vou embora.
Quero ficar, mas tenho as malas prontas e um orgulho que pesa mais que meu corpo. E minha matéria, do que mais ela pode ser feita? me construí naquilo que suportei. Não há mais motivos pra tampar rebocos.
Meu corpo se desfaz entrando em estado líquido, na minha cama é que sinto nossas dores.
Eu só preciso de um pouco de carinho e vou embora, uma mão na nunca ou um beijo na testa já me basta...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

"Abrindo um antigo caderno
foi que descobri
antigamente eu era eterno"

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Luisa perdera o gosto por escrever em diários quando tinha 12 anos, após ser descoberta. Desde de então essa menina que agora usa cabelo curto e repicado escreve em seu corpo suas lembranças. Perdera a vontade de se esconder na terceira gaveta escura do armário. Luisa hoje pinta os olhos e mostra para todo mundo, ou melhor, para quase todo mundo suas pequenas dores diárias.

domingo, 5 de fevereiro de 2012


E as certezas começam a vir assim aos poucos, entre os desencontros e pequenas decepções. Porque afinal, eu havia de ter certeza que é seu sorriso que quero mesmo depois de um dia inteiro de trabalho, suor e dor de cabeça. Heis nossa pequena demência e vicio um do outro.
Eu poderia tentar me articular entre desculpas e pseudo-máscaras, só para que ninguém saiba que estou definitivamente entregue. Não fujo mais.
Caminhos como o seu tendem a me levar pro chão num simples jogo de frases. Mesmo assim eu me entrego, dou-lhe minha vida e alma.
Dessa vez, e somente dessa vez eu não quero mais ser uma flor de plástico.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Menina da pele branca que possui olhos de fundo do mar,


Hoje, eu a tenho e a aceito do jeito que é. Tens a vida em suas mãos e aos poucos pega a vida de quem vive ao seu redor, inclusive a minha. É um amor bonito esse nosso, há quem diga que a amizade é o amor mais puro que existe porque não há fantasia. Bom, quem diz isso não te conhece.
Agradeço por todas nossas trocas, por me levar pro seu mundo do nunca. Somos incrivelmente felizes juntas porque vivemos na terra encantada. Seus olhos anunciam o nosso futuro, seus olhos enxergam um horizonte mais tranquilo, e é por isso que permanecemos vivas e ligadas.
Tenho medo que não caiba mais em mim nosso amor, é tão puro e bonito que tenho medo que ele se perca no tempo, porque afinal vamos enrijecendo. O que eu realmente quero e peço é que a gente não se perca, mesmo com todas as perdas e faltas, mesmos depois de algumas ausências ou choros solitários. Perderemos muitas coisas, mas nunca nossa essência, então eu lhe peço por favor que não deixe isso se perder.